Crônica dos Perdidos

Há 10 meses, vivi um grande momento neste esporte que escolhi para fazer e que é, para mim, um dos mais gratificantes que já pratiquei. Gratificante pelo estilo ao ar livre, pelas paisagens, pelo companheirismo incondicional e pelo desafio constante e crescente à cada prova que é a Corrida de Montanha. Minha estréia nas corridas de montanha foi em 2011, no Morro da Cruz em Colombo-PR. “Sofri feito cão”, mas adorei cada km dos 12 percorridos.
Bom, voltando há 10 meses, em 12/10/2013, completei em 7h41 os 40km da Short Mision da Serra Fina. Para mim, um grande feito! Principalmente, porque fiz a prova bem disposto e completei com a sensação de que podia ainda correr mais uns 10km, além dos lugares incríveis pelos quais passei.
Para este ano, novos desafios. Preparei um calendário progressivo, visando chegar na Serra Fina novamente e fazer os 80km desta vez. No caminho, estava a Maratona dos Perdidos, que em sua segunda edição seria um grande desafio, só não maior que a primeira edição, onde as histórias de mau tempo e dificuldades do percurso em si mostravam que esta não é uma prova qualquer.
Na madrugada do dia 19 de julho, cheguei ao ônibus para o transporte até a base do Morro dos Perdidos, em Tijucas do Sul. No ônibus, a conversa não poderia ser outra: “A prova é dura”, “me preparei assim”, “treinei de tal forma”, “não treinei o quanto queria” e assim por diante. As 4:20 saímos da Praça Oswaldo Cruz em Curitiba e praticamente uma hora depois com o céu ainda escuro, desembarcamos na chácara do Osmarildo que serve de QG para a turma de destemidos dispostos a enfrentar os insanos 44km da prova.

Preparado para a prova. Preparado?

Preparado para a prova. Preparado?

Bom, a prova dos Perdidos começou muito bem. O dia estava perfeito para uma corrida de montanha. Céu limpo e um frio característico da região de serra. A subida do Morro dos Perdidos, de 6km, mostrava um visual que poucas vezes treinando por aquelas bandas consegui ver. Quase chegando nas antenas encontro com o Luiz Voronovicz (na verdade ele me alcançou e passou), com sua disposição e simpatia costumeiras. Então a paisagem se descortina naquele dia claro e mostra uma visão ótima lá de cima. Logo depois encontro com o Fabio “Japa” no topo e bora descer!
A descida já não tinha a mesma velocidade de outrora por conta da lesão no joelho, o que criou um receio crescente de uma torção de joelho ou outra lesão, mas continuei mesmo assim. Lento e constante cheguei de volta à estrada, onde um trote me levou até a trilha da cachoeira e depois a uma subida forte na rota Perdidos-Araçatuba. Aquela trilha tinha bastante barro, mas ainda em boas condições mesmo após uns 100 competidores terem passado por ali. O dia começava a esquentar e já dava para se livrar do corta vento. Alguns quilômetros adiante cheguei ao reflorestamento e a 1ª subida na encosta do Araçatuba. Subida chata, parte do percurso dos 21km do Araçatuba de um trecho que não é trilha e nem estrada. A chegada à Pedra da Coruja trazia uma boa notícia: Falta uma descida bastante conhecida até a Chácara do Prof. Hamilton, onde fica o P.A (Ponto de Apoio?) e o temido corte das 5 horas de prova. Calculei chegar lá com umas 4h30 e ainda consegui adiantar uns 10 minutos.
Chegando ao P.A., encontrei com o “Presidente” Cesar junto com o André e a Helen e a brincadeira do “Táca-le pau” foi inevitável. Cumprimentos e desejo de uma boa prova. E como estava boa! No P.A. a atenção do Nelson Pexe e do pessoal de prova da TRC foi muito boa e reanimadora regada a Coca-Cola, amendoim e paçoca.
Saí do P.A. com a certeza de que o pior estava por vir, mas todos os terrenos daqui por diante eram conhecidos, dados os treinos que fizemos com a turma da FC Trail por estas bandas. Veio a 2ª subida na encosta do Araçatuba e a descida pela avalanche em direção à chácara onde fica uma cachoeira muito boa de tomar banho, mas nada de banho desta vez… Logo após a cachoeira e um reabastecimento de água, comecei a subida em direção a Lapinha, que é uma espécie gruta de enormes blocos de pedra na ponta oeste da montanha e está na rota usual de descida do cume da montanha.
No final desta subida começou uma sensação esquisita, um cansaço muito forte com algumas câimbras na coxa esquerda. Logo pensei: Estou compensando a dor no joelho direito forçando a perna esquerda, mas as medidas que eu podia fazer já tinha feito: pílulas de sal em intervalos regulares, alimentação durante a prova com frutas secas e castanhas. “Ok, quando chegar na Lapinha eu faço uma parada, descanso, como um sanduíche e volto para a prova”, pensei. Dito e feito: achei uma pedra, sentei e tentei comer. O problema é que a sensação de enjoo e tontura não davam o menor sinal de passar, nem as câimbras. “Bom, vamos em frente”. Mais quinze minutos e o quadro estava ainda pior. Mais tontura, enjoo e câimbras. Dei meia volta para desistir e descer pela Lapinha direto para a chácara do Prof. Hamilton. Em pouco tempo encontro com o “Fecha-Trilha” Mildo. Perguntou o que tinha acontecido e expliquei para ele meu plano de abandono, já com um misto de sensações das mais variadas, da derrota pura e simples à vergonha de abandonar uma prova, passando pela auto recriminação de ter insistido durante meses com uma dor que não passa, nem por mágica ou por uma semaninha parado ou por mais alongamentos…
Feliz, ou infelizmente, o Mildo não aceitou meus planos. Bom, mas qual alternativa? Já que Corridas de Montanha não tem planos de abandono fáceis ou às vezes sequer possíveis. Não dá pra pegar um táxi na esquina e voltar pra casa…
A alternativa era subir até o cume do Araçatuba e de lá descer junto com o Staff direto para a chácara, o único senão era que isso implicava em fazer o pior trecho da prova! Nem preciso dizer que foi um tormento. Tive câimbras na perna esquerda como nunca tinha sentido na vida e um cansaço que me fazia parar a cada dez metros.
Chegando ao cume comi uma maçã que caiu muito bem! Por um instante me senti revigorado e pronto para voltar pra prova, mas logo voltei para minha decisão de 5 quilômetros atrás de abandonar a prova. Dali em diante eram mais 14km de prova e ainda teria que correr atrás do “Fecha-Trilha”. Era o tipo de ousadia que não cabia naquele momento. Enfim a decisão estava tomada e mudá-la naquela hora não era o mais sensato. Paciência, não é a última prova.
Desci, cheguei à chácara do professor e ganhei uma carona para a base dos Perdidos. Entrei no restaurante do Osmarildo para comer, afinal tinha almoço incluído para os participantes da prova. Não dizia nada que seria só para os “finisher”. He he he.
Sentei junto com a galera da FC Trail, uma grande família de companheirismo e comprometimento com aquilo que há de melhor no esporte, e fiquei ouvindo as histórias dos colegas que concluíram ou não a prova, seja em 8, 9, 10 horas ou até mais. Todos Guerreiros! Alguns tinham tirado a teima do ano anterior quando ficaram no corte, outros empurraram em muito seus limites para completar a prova.
No geral, quero registrar à bela organização de prova feita pela TRC com marcações bem feitas e staffs bem preparados. Quero registrar aqui minha admiração àqueles que completaram esta prova, em especial à turma da FC Trail que são verdadeiros “monstros” da Corrida de Montanha, correndo com muito companheirismo e vontade de superação! Para mim, é hora do tratamento, arrumar o joelho pra voltar rapidinho aos treinos e refazer o calendário de provas sempre contando com a paciência infinita da esposa que tanto me apoia.
Me aguardem!

Autor: Walter Filho

Corredor de montanha pelo prazer de correr em belos lugares. Curto mais o caminho do que a chegada!

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4 Comments

  1. Excelente relato Walter, fez a escolha mais sensata, torço pela sua recuperação e que no próximo ano o desafio dos Perdidos seja concluído! Abraços

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  2. Grande Walter, vc é um cara qie respeito muitk e que conhece muito bem a região. Tomou a decisão correta, ainda mais tendo Serra Fina pela frente. Demonstrou que tem maturidade e que não deixa o ego te colocar em enrascadas. Como vc mesmo disse, não é a última prova! Grande abraço!

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  3. Walter excelente matéria, e como se diz bola para frente, agora é se recuperar, você é guerreiro, teremos muitas provas juntos ainda e bora ficar bom para treinar.

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  4. Walter…. Independente de ter concluído ou não concluído você também é um mostro das montanhas… parabéns por respeitar seus limites. E parabéns pelo excelente texto!!!

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