Cerro Toco 5.604m: meu primeiro cume acima dos 5000m

Após duas tentativas frustradas de alcançar o Cerro El Plomo (5.424 m) durante a prova Andes Mountain Sky Race, sem aclimatação, quando eu e a Fran fomos ao Atacama não pude deixar de tentar meu primeiro cume acima dos 5.000 metros. Em Santiago eu já tinha tido o o gostinho de ultrapassar os 5000m.

O Cerro Toco é um vulcão extinto, com cume duplo, ambos com aproximadamente 5.604 metros. É verdade que, visto de San Pedro do Atacama, ele não impressiona tanto quanto o vulcão Licancabur e o Juriques, símbolos da região. O Licancabur seria minha primeira opção, se fosse viável fazê-lo apenas pelo lado chileno. Existe uma rota, mas com logística complicada, já que a via tradicional é pelo lado boliviano, o que seria incrível, se não fosse a restrição de atravessar a fronteira com carro alugado.
Dito isso, meu planejamento inicial era fazer o vulcão Lascar, que seria meu primeiro vulcão ativo. Porém, ao chegar na cidade, descobri que o acesso estava restrito devido a um alerta amarelo. O vulcão estava emitindo gases tóxicos e, dentro de um determinado raio, o acesso estava proibido.
A escolha óbvia e mais acessível acabou sendo o Cerro Toco. As agências da região oferecem essa experiência com subida em veículos 4×4, guia profissional, capacete (item essencial) e um ritmo controlado. Sem nenhuma prepotência, esse não era o meu objetivo. Eu queria testar minha fisiologia em altitude, indo no meu limite, com base nas experiências anteriores e com risco controlado.
Aclimatação
No primeiro dia, chegamos em Calama, alugamos um Suzuki Baleno e seguimos para San Pedro do Atacama. Não fizemos nenhum grande esforço. San Pedro está a cerca de 2.400 m a 2.500 m de altitude. Levei um oxímetro e minha saturação estava em 95%.
No dia seguinte, pela manhã, fomos até o Mirador Likan-Antay. Desci para o vale e trotei nas areias do deserto, uma sensação absurda. De lá, seguimos para o Valle de la Luna, onde corri em várias trilhas e ainda peguei algumas coroas em segmentos do Strava.


No final da tarde, fomos até o Magic Bus, onde corri por formações rochosas incríveis e presenciamos um dos pores do sol mais bonitos que já vimos.
No terceiro dia, todo mundo recomenda fazer atrações em altitudes menores por alguns dias antes de subir acima dos 4.000 m. Eu, já “contaminado” pela altitude, cometi o erro de ir ao altiplano, chegando a cerca de 4.500 metros de carro, com bastante tempo de exposição.

Eu fiquei bem, mas a Fran não. Durante o passeio teve enxaqueca e, à noite, uma sinusite forte que durou dias e quase comprometeu a viagem. Nesse dia fomos próximos à fronteira com a Argentina, passando pelas lagunas de Tara, Quisquiro e Quepiaco. Vimos vicuñas, dois zorros culpeo, flamingos e lhamas. Impressionante como a vida prospera em condições tão extremas.
Na volta para San Pedro, fiz algo que representa muito para mim: vi uma montanha com uma estrada, parei o carro, pedi para a Fran ficar atenta e subi trotando até o topo, ultrapassando os 4.700 metros.
No quarto dia, novamente acima dos 4.000 m, mesmo com a sinusite, a Fran não quis perder o passeio aos Geysers del Tatio. Saímos às 5h da manhã, com temperatura próxima de 0°C. Após cerca de uma hora de estrada escura e cheia de curvas, chegamos ao complexo.

O termômetro do carro marcou -11°C, a menor temperatura da viagem. Os gêiseres são impressionantes, e o horário cedo é essencial para ver melhor o vapor devido ao contraste térmico.
Depois do passeio, parei novamente para um trote a cerca de 4.100 m. É uma região cheia de montanhas acessíveis por estrada, que pretendo explorar melhor no futuro.
No final da tarde, fomos até Talabre, um vilarejo aos pés do vulcão Lascar. Tentei avançar mais pela estrada, mas fui impedido pelas autoridades devido ao alerta. Ali era o ponto máximo permitido. Mais um pôr do sol surreal.

Dia 5, o grande dia
A Fran ficou na pousada e, por volta das 7h30, com temperatura de 9°C e partindo de cerca de 2.450 m, segui rumo ao Cerro Toco pela Ruta 27.
Após subir cerca de 1.800 m de altitude em aproximadamente 35 km, entrei à direita em uma estrada de terra que leva ao Cerro Toco e ao observatório astronômico (Atacama Cosmology Telescope).


Mesmo com um Suzuki Baleno, consegui subir muito além do esperado, chegando a cerca de 5.050 m. Estacionei próximo ao observatório, com temperatura de 1°C.
Iniciei a subida em ritmo de hiking forte até o cume. Passei por dois grupos de turistas e conversei rapidamente com os guias, todos muito atenciosos.
A trilha é bem definida e sem grande dificuldade técnica. Encontrei alguns trechos com gelo, mas sem necessidade de grampons. Como em muitas montanhas do Chile, o terreno com pedras soltas exige mais esforço.

No cume, pedi para um guia tirar algumas fotos. Medi a oxigenação, que estava em 75%, e segui para o segundo cume, completamente vazio. Explorei um pouco o platô e iniciei a descida.



Descendo, comecei a trotar. Em um momento, vi uma trilha para um pequeno mirante. Ao tentar pular entre rochas, faltou força, a altitude cobrou seu preço e fui ao chão. Consegui amortecer bem a queda, machuquei levemente o braço e o joelho, mas protegi a cabeça.
Na hora lembrei dos capacetes usados pelos turistas. Faz total sentido. Poderia ter sido um acidente sério.
Segui com mais atenção até o carro. No total, fiz 6,4 km em 2h30. Peguei dois KOMs, um da subida desde o ponto onde as agências param e outro desde onde deixei o carro.

Minha saturação variou entre 78% e 72% no final. Fiquei muito feliz por conquistar meu primeiro cume acima dos 5.000 metros.


Sobre a aclimatação
Sendo bem honesto, não foi suficiente para desempenho máximo. Não passei mal, o que já foi muito diferente do Cerro El Plomo. Mas lá o tempo de exposição e o esforço foram muito maiores.
Acredito que mais dois dias de adaptação, subindo até 5.000 m e descendo para dormir a 2.500 m, fariam muita diferença.
Minha percepção pessoal é essa:
2.500 m ok
3.500 m ainda ok
4.000 m começa a pesar
4.500 m pesa
5.000 m para cima, pesa muito
A diferença é brutal.
No sexto dia, após essa experiência, fui correr no Valle de la Muerte, a cerca de 2.600 m. Foi incrível. Corri como se estivesse no nível do mar, com bom desempenho em subida e descida.

O Atacama é um absurdo. Quando a Fran sugeriu a viagem, não me empolguei tanto. Achei que seria uma experiência ok.
Mas a realidade é outra. A riqueza de paisagens, a quantidade de montanhas e vulcões, a sensação de liberdade… é um lugar que dá vontade de voltar.
Me senti muito bem ali. Um verdadeiro sentimento de pertencimento.

