Merrell Andes Mountain SkyRace 2026 – 18K El Pintor

De volta à Cordilheira dos Andes. Depois de duas tentativas em que estive muito próximo de alcançar o Cerro El Plomo (5424 m), ultrapassando os 5000 m, mas ficando no corte por tempo, acabei “desistindo” da alta montanha e da sua privação de oxigênio.

Eram 3 cortes para a distância maior (42K): o primeiro no Refugio Federación, km 13, com 4:15 de prova, a cerca de 4100 m de altitude; o segundo no Refugio Agostini, km 15, com 5:15, a aproximadamente 4600 m; e o último na Pirca del Inca, km 17, com 6:15, na casa dos 5000 m.

Os dois primeiros eu passei no ano passado, mas o terceiro, que é um paredão vertical de acarreo, onde se ganha muita altitude, sempre bati na trave.

Não estou nesse nível, nem sei se é possível alcançá-lo. Minha fisiologia não é capaz de fazer uma prova tão alta sem aclimatação. Dito isso, optei pela distância e altitude mais moderadas: 18 km, 1520 m de desnível positivo e altitude máxima de 4180 m, no cume do Cerro El Pintor.

Também me inscrevi para o VK, que iria acontecer um dia antes, no final da tarde, mas por questões logísticas acabaram alterando para os 10K, que largariam juntos no sábado, o que inviabilizou a minha participação.

Por volta das 5:00 da manhã, acordei para deixar o Murilão, que foi para os 42K, na sua largada às 6:00. Chegando na arena, encontramos a Catherine, que se mudou recentemente para o Chile. Conversamos um pouco e deram a largada.

Eu e a Laksmi voltamos para o hostel para aproveitar mais alguns minutos de sono antes da nossa largada. Por volta das 8:00 começamos a nos ajeitar e fomos novamente para a arena, dessa vez junto do Fred, que ia para os 10K, do Gui, nos 18K, e sua namorada, prestigiando.

E finalmente, às 9:00 da manhã, com temperatura de 6º e a 2750 m de altitude, larguei de forma conservadora, bem no fundo do funil, bem diferente do Araçatuba Half Marathon rs. Como eu já conheço bem o percurso, sei que não é tão importante largar na frente. A trilha batida é single track, mas se você quiser ultrapassar, é só sair e passar pelo lado, num monte de pedrinhas que afundam. Você perde um pouco de tração, precisa fazer mais força, mas passa. E assim fui ultrapassando dezenas de atletas nas íngremes subidas rumo ao Cerro Pintor.

Eu era um dos poucos sem bastão. Minha tática foi olhar para o chão e não para as subidas infinitas à frente rs.

Logo depois do km 6 começou a humilhação. Os primeiros colocados já estavam voltando, descendo muito forte.

No treino de aclimatação, realizado dois dias antes da prova, num trote bobo e inocente, sem forçar, sem estar cansado, ali por volta dos 3400 m de altitude, dei um pequeno vacilo. Nem sei como, tropecei e caí. Machuquei a mão esquerda e o joelho ficou um pouco dolorido. Caí em cima de umas pedras grandes.

Depois que alcancei os 4000 m, próximo ao cume do El Pintor, percebi que a altitude me afetou não apenas no desempenho, mas também nos reflexos. Redobrei a atenção para não tropeçar e cair novamente. Deixei a passada um pouco mais alta, mas logo esse mal-estar passou. Com 9 km em 2h13, alcancei o cume do Pintor.

Como o percurso não era circular, chegou a minha vez de cruzar com os outros atletas na descida, o que exigia atenção e constantes desvios. Na descida da Falsa Parva, encontramos também os participantes dos 10 km subindo. Era muita gente. Tinha que sair da trilha o tempo todo para não esbarrar em ninguém. Ainda assim, nada impeditivo de performance, nada de congestionamento como vemos em muitas provas no Brasil, principalmente nas subidas.

O terreno, tanto na subida quanto na descida, é um cascalho com sedimentos de todos os tamanhos. Usar a polaina foi fundamental. Não entrou uma pedrinha sequer no meu tênis.

A descida de 9 km é tão íngreme que exige muita atenção. Eu imaginava estar num pace de 4:30, mas fiz média de 7:00. Ainda assim, fui passando vários atletas, principalmente na parte final, quando a descida fica menos técnica e consegui desenvolver melhor.

E, para não perder o costume, faltando 1 km para a linha de chegada, comecei a sentir câimbras na posterior esquerda. Acredito que não tenha sido desidratação, mas sim a alteração do movimento. Os 9 km iniciais são praticamente uma subida só, depois vem uma descida em que você não usa toda a amplitude da passada. Como é muito inclinado, é necessário ir freando, o que castiga os joelhos e as coxas. Esse trecho final não era tão inclinado, minha passada ficou mais ampla, e acredito que isso tenha ocasionado a câimbra.

E finalmente, com 3h19, cruzei a linha de chegada. Fiquei em 54º lugar geral entre 180 atletas, 50º no masculino. Minha expectativa realista era fazer pouco abaixo de 4 horas.

Foi longe de ser minha melhor classificação em um evento, mas saí feliz e satisfeito por ter aproveitado a prova. Me diverti na subida e na descida, tive disputas com atletas chilenos e de outras nacionalidades. A bandeirinha do Brasil no quiver que o Marcelo me emprestou foi vista por muitos estrangeiros rs.

A vista era magnífica. No meio da Cordilheira, você se dá conta do quão pequeno você é e de como Deus é perfeito em sua criação.

Depois da prova, ainda energizado pela atmosfera dos Andes, resolvi subir mais um pouco. Saí da arena e subi mais 2 km, com 360 m D+, aproveitando cada instante nesse lugar pelo qual sou apaixonado.

Gratidão por poder estar novamente nessas montanhas que me inspiram e elevam.

E, como de costume, após as nossas provas, nos reunimos e comemoramos com um champagne especial da casa Libre Wines, do nosso amigo Fred. Laksmi foi a primeira mulher brasileira a finalizar essa prova no Chile. Parabéns, galera!!

Meus agradecimentos ao treinador Carlos Eduardo, da Carbono Assessoria, ao professor Alan Lima, que me deu boas dicas para performar melhor, e aos meus vários companheiros de treino nesse ciclo, que realmente foi pesado pra mim.

Sentia o cansaço no dia a dia, parei de bater RPs e KOMs no Strava kkk. Mas, no final, deu tudo certo. Fiz uma ótima prova, me sentindo muito bem!

À minha parceira e incentivadora incondicional, Franceli.

Tudo isso se torna mais tangível com o apoio de todos vocês. Gratidão!

Tênis utilizado: Merrell Agility Peak 6. Já gostava muito da versão 5, e nessa nova versão senti mais estabilidade e um grip ainda melhor, com o Vibram Mega Grip. Bom conforto no pé e muita segurança. Eu enfiava o pé com tudo nas pedrinhas dos acarreos, o pé afundava e o tênis respondia muito bem. A proteção é absurda, inclusive com uma placa rígida que evita que pedras ou até pregos furem o solado. Em conjunto com a polaina, foi a melhor escolha para essa prova.

Subindo o Cerro El Pintor, com o Cerro El Plomo ao fundo.
Antes da largada, Laksmi, eu, Fred e Gui.
Comemoração pós prova! Murilo, Fred, Guilherme e eu! Parabéns galera
No cume do Cerro El Pintor, 4180 m

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