Travessia Araçatuba x Monte Crista (Ambrósios)

18 de maio de 2019, base do Morro do Araçatuba (Tijucas do Sul – PR) pontualmente às 04:30 eu e um grupo de 12 atletas iniciamos a Travessia Araçatuba x Monte Crista organizada pelo @anderson_machado1977, que consiste em cruzar do estado do Paraná para o estado de Santa Catarina passando por uma região de montanhas que totaliza quase 60 Km de percurso. O início da jornada já começa com o ponto mais alto da travessia, o Morro Araçatuba (1673 m), poucos minutos depois que entramos na trilha já começou aquela garoa chatinha, bem fina, e com a subida quase vertical do morro ela se intensificava (junto com o vento gelado), com 1h10m e 3,3 Km percorridos alcançamos o cume da montanha, fizemos uma rápida parada para se alimentar e iniciamos a descida pela face sul da montanha já sob chuva forte, rumo ao “Inferno Verde”, alcunha do Vale do Rio Pinhal que separa o Araçatuba do Morro da Baleia (1555 m), durante essa descida a @fatiribeiro21 estava na minha frente e caiu dentro de um buraco, poderia ter sido grave, felizmente nada mais sério. Alcançamos o Morro do Baleia e descemos rumo ao labirinto da ComFloresta com seus morros repletos de pinus, seria esse o momento de tirar o atraso na corrida, apesar de estarmos mantendo um ritmo constante e forte de caminhada, levamos quase 4 horas para fazer apenas 11 Km, ainda tínhamos muito chão pela frente. Foi justamente nesse trecho que tivemos uma alteração no percurso, boa parte do grupo já havia feito essa travessia uma ou duas vezes, e ao chegar num ponto em que todos tinham certeza que era por um caminho que nos manteria na estrada por algum tempo, o percurso que havíamos carregado no WikiLoc, relógios e GPS nos mandou e fomos por outro, com muita subida, trilha fechada e pouco batida (na verdade parecia uma trilha recente), eu imagino que isto tenha nos tomado um precioso tempo, além disso no topo desse morro demos algumas pequenas perdidas que também nos custaram tempo.

Superado o trecho anterior, continuamos nas estradas da ComFloresta com algumas belas vistas de cachoeiras e paradas para captar água e comer. Pasmem, a chuva parou o que me deixou muito animado e acredito que os outros também, mas logo a ela voltou ainda mais forte😪, com 6 horas de atividade e 19 Km percorridos paramos para o almoço debaixo d´água, comemos e finalmente entramos nos Campos do Quiriri, ou melhor Charcos do Quiriri, aonde logo de início demos mais uma perdida…

Finalmente adentramos nos Campos do Quiriri, essa seria a realização de um desejo antigo de conhecer esse belíssimo território montanhoso, mas para minha infelicidade (e de todos) com a chuva e neblina e visibilidade era péssima. Logo no início da trilha já demos uma perdida, bem longa, o terreno estava muito alagado o que dificultava a progressão, os pequenos cursos de água se transformaram em furiosas corredeiras, pelas minhas contas atravessamos quatro dessas. Rodamos cerca de 19 Km por esses campos de altitude, com muitas subidas, descidas e perdidas, sinceramente eu tinha a impressão que estávamos andando em círculos, lá pelas tantas alcançamos o marco da divisa entre o PR e SC, um belo obelisco no meio do nada. Por volta das 15:00 percebemos que não seria possível alcançar e finalizar a travessia no Monte Crista no horário programado, combinamos com o Marcos da van que estaríamos em Garuva até às 19:30, ressaltando que em todo o percurso não tivemos sinal de celular para que pudéssemos avisá-lo ou mesmo nossos familiares, o plano B foi ir até a Fazenda Alto Quiriri para tentarmos nos comunicar com a van e pedir que nos buscasse em outro local.

Passamos pelo Pico do Bradador (1527m) e iniciamos a escorregadia descida rumo a fazenda, chegando na fazenda batemos e fomos atendidos por uma moça que nos informou que o telefone não funcionava, talvez em uma antena que ficava no topo de um pequeno morro, derrepente os hóspedes da fazenda saíram e vieram conversar conosco, viram que todos estavam encharcados e tremendo de frio e foram muito prestativos, fizeram um chá quente, chamaram as pessoas que estavam com mais frio para irem se aquecer na lareira, pessoal nota 1000! Não tenho o contato deles, mas sempre vou ser grato pelo apoio que nos prestaram, obrigado!

Salvo engano o @renatokrz foi até a antena e nada de sinal de celular, nos informaram que no vilarejo do Postinho em Tijucas do Sul conseguiríamos ajuda para chamar a van, o único detalhe é que o Postinho ficava a 16 Km da fazenda, já tínhamos rodado 38 Km até aquele momento, ainda teríamos muito chão (com subidas e descidas) pela frente, pouco antes de partir todos nós utilizamos nossos cobertores de emergência confeccionando ponchos para ajudar na friaca, agradecemos o pessoal da fazendo e iniciamos o último trecho da jornada. 

Esses 16 Km foram idênticos aqueles quilômetros finais de uma prova, que você não vê a hora de chegar e não chega nunca, passamos por algumas pontes e dava para ver que o nível dos rios estavam bem altos, num outro ponto o rio transbordou e invadiu a estrada, isso já era noite, todo mundo cansado e desanimado, pensa no climão. Enfim chegamos ao Vilarejo do Postinho, nada do telefone funcionar, o pessoal que foi na frente contratou um morador com carro para levar eles até Garuva para trazerem a van, o detalhe é que era muito longe, a estrada estava muito ruim só para chegar lá foram 2 horas e mais 2 horas para voltar, enquanto isso nos abrigamos na Igreja do vilarejo, onde fomos fantasticamente em recebidos, todos foram muito solidários conosco, agradecimento especial ao taxista Claudir (valeu mesmo!) que me colocou dentro do táxi dele (mesmo eu sujo e molhado) e foi em busca de uma casa com wifi para que pudéssemos nos comunicar quem sabe agilizar o nosso resgate, mas por conta das chuvas a cidade toda estava em sem wifi já a dois dias, lá pelas tantas chegou a irmã dele com um aparelho celular daqueles bem antigos, rodamos um pouco pelo vilarejo até achar um local que finalmente funcionou o celular, liguei para o @renatokrz que confirmou que estavam a caminho com a van, que alívio! Voltei para igreja e ficamos esperando a van chegar, um casal de moradores nos emprestou cobertores e todo mundo ficou sentado nos bancos com as pernas cobertas. Essa noite provou que mesmo que o mundo esteja um caos, temos que ter fé na humanidade, as pessoas são boas sim, por natureza!

Não tenho certeza do horário, mas acho que van chegou por volta de 01:00 da madrugada, euforia geral na galera, tirar aquelas roupas molhadas, colocar roupas sequinhas, íamos finalmente voltar para nossas casas, tomar um banho e ver nossas famílias, #SQN. A região que estávamos era de serra, e mesmo na estrada tinha umas subidas nervosas, agora imaginem estradas de chão e chuva caindo nela durante vários dias, na primeira subida maior a van patinou e não conseguiu continuar, descemos da van e o Marcos (motorista) tentou mais uma vez, sem sucesso.

Só nos restou voltar para o vilarejo e tentar achar alguém para nos rebocar, mas já era muito tarde e não quisemos incomodar as pessoas, ficamos tentando dormir, até que por volta das 02:30 vem um caminhão em nossa direção, o Marcos sai correndo e aborda o motorista que concorda em nos rebocar após colocar uma costa de fogo de chão para assar na igreja (ia ter festa no domingo), após algum tempo o motorista aparece numa moto e diz que nos guiaria pela chamada Estrada Velha do Postinho, igualmente íngreme porém coberta com saibro. Finalmente conseguimos encontrar o caminho para casa! Eu e o Luiz fomos interceptados pela sua filha e seu genro, descemos da van e fomos com eles, nesse meio tempo muita gente ficou preocupada e fizeram vários esforços para nos ajudar, muito obrigado e também perdão pelo susto@denegajessika @fabiojapa1 @wcsantosfilho @crisdallagnol @barbosambruno @thiago_cerdeiro Cesão e Pri e vários outros que não conheço.

Em resumo foram 52 Km rodados em 16 horas praticamente ininterruptas (de chuva também) com 3146m de ganho de nível positivo, não foi Araçatuba x Monte Crista, mas foi Araçatuba x Quiriri x Postinho com mais altimetria que o percurso original, um baita treino físico e mental, mas muito mais do que isso, uma experiência muito valiosa. Nossos planos não deram certo, mas graças ao bom Deus todos ilesos! Tenho certeza que todos saíram dessa mais fortes do que quando iniciaram a travessia, e que nas próximas aventuras a segurança será levada ainda mais a sério, com planos A, B, C, D, E…comunicação aprimorada, discernimento para não continuar se o tempo não permitir. É isso pessoal, foi uma honra passar esse perrengue com vocês!!! (mas da próxima sem tanto perrengue por favor kkkk) 

 

Durante a semana descobri que a igreja que ficamos é a mesma do antigo Trail dos Ambrósios que era realizado pela TRC, como estava a noite e tudo molhado não reconheci o local.

O pós travessia: Nem tudo são flores após os longões, um dia após a travessia eu estava literalmente quebrado, músculos doloridos, coxas assadas 🍗, três dedos do meu pé estavam colados (de ficar tanto tempo com o tênis molhado), tive que descolar e aí abre aquela ferida chata bem no meio dos dedinhos, pois bem, na terça feira já estava praticamente 100%, músculos recuperados, assadura tratada com Hipoglós, ferida dos dedinhos com talco anti séptico, a única coisa que não recuperou foi o joelho direito, para andar no plano ia bem, mas para subir um degrau de escada era muito dolorido, o jeito foi esperar 7 dias até que o joelho ficasse bom e finalmente encaixar um treino. 

Link do percurso no Suunto App: https://app.suunto.com/move/diegodenega/5ce1b73ee883bf052167c2d8/

IMPORTANTE: Vou deixar o contato do amigo Claudir que é taxista e nos deu um grande auxilio em nossa estada lá no Postinho (rodou por tudo em busca de Internet e um telefone) um dos anjos que entrou em nosso caminho.  Ele é taxista em Tijucas do Sul e precisando não pense duas vezes, entre em contato com ele! Celular e WhatsApp 41 9 9779-1502

Autor: Diego Denega

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