100K do Indomit Costa Esmeralda Ultra Trail 2014

Participei no dia 17/Maio da 1ª Edição do Indomit Costa Esmeralda Ultra Trail, na modalidade 100K. Em primeiro lugar, quero parabenizar os organizadores, pois a prova além de ter um lindo trajeto, foi impecavelmente organizada. Staffs bem informados e atenciosos, trajeto bem sinalizado, postos de apoio repletos de comida, bebida e pessoas bem humoradas incentivando os atletas. Não percebi nenhuma falha em termos de organização.

Bem, vamos ao relato… A minha maior prova até então havia sido a Corupá Extreme Marathon (TRC) em Fev/2014, na qual a distância oficial foi de 46K e a mostrada nos dispositivos de GPS dos corredores foi de quase 50K. Seja considerando 46K ou 50K, o salto de distância para a modalidade de 100K seria bastante considerável para a minha experiência em Corridas em Montanha.

Para contextualizar como foi a minha preparação para o Indomit, quero voltar um pouco a Corupá. Naquela prova me preparei praticamente sozinho, embora os grandes amigos Alessandro Muniz e Marcos Marinho tenham participado também da prova na modalidade de 23K. Foi uma prova bem dura na qual sofri muito, pois fiz grande parte dela com uma lesão muscular bastante grave. Ao final da prova estava meio traumatizado e disposto a fugir do mundo do Trail/Mountain Running, mas no dia seguinte percebi que apesar das incontáveis dores e sequelas momentâneas, eu estava viciado de vez neste esporte incrível e apaixonante. Fiz a pré-inscrição para os 100K do Indomit achando que não seria aceito, mas acabei sendo e o desafio estava lançado.

Após Corupá, surgiram algumas conversas em um grupo de Corrida em Montanha no Facebook entre algumas pessoas que já se conheciam entre si de outras provas, sobre treinos preparatórios para o Indomit. Eu não conhecia ninguém, exceto pelo Alessandro Muniz. Viajei em férias enquanto os primeiros treinos rolaram, e quando voltei o Alessandro me colocou em contato com essa galera nota 10 da FC Trail, os quais mesmo conhecendo há pouco tempo já considero grandes amigos e parceiros das trilhas. Comecei a treinar com eles e fizemos alguns treinos em Campo Magro, Caminho Trentino e no Morro dos Perdidos. Não me sentia totalmente pronto, mas eis que chegou o dia e rumamos para Porto Belo para enfrentar o Indomit. Estávamos em 10 pessoas da FC Trail: 3 nos 100K, 3 nos 84K e 4 nos 50K.

As largadas eram em horários distintos de acordo com as modalidades. À meia-noite de Sexta para Sábado (16 para 17 de Maio), estavam comigo prontos pra largar nos 100K os amigos Thiago Cerdeiro e Bruno Manfredini Barbosa. A adrenalina bateu mas estávamos todos animados e ansiosos. À meia-noite, cronômetro zerado, a buzina soou e largamos. Apesar de 100K ser uma distância a ser respeitada, o estudo que havíamos feito da altimetria nos levou a esperar uma prova com muita praia e alguns poucos morros não muito altos… ou seja, acreditávamos que o desafio seria a distância, e não a dificuldade do terreno.

Os primeiros 10K de prova eram basicamente praia com areia boa de correr, alguns trechos de calçadão e pouquíssimo asfalto. Era um trecho totalmente plano e seguimos os 3 juntos em um ritmo muito bom, nos sentíamos bem e corríamos confortavelmente. Em certa altura do trecho de calçadão encontramos o grande George Volpão, que largaria no dia seguinte nos 21K, e nos acompanhou por um bom trecho filmando com uma pequena câmera.

Haviam outros 3 membros da FC Trail (Cesar, Andre e o grande Seu Luiz) que largariam às 2:30 nos 84K, e como neste trecho estávamos correndo razoavelmente rápido estimamos que até 1:30 passaríamos pela largada dos 84K, ou seja, 1 hora antes dos nosso amigos largarem. Como quase sempre ocorre neste esporte, estávamos errados! Logo surgiu subida, morro com trilhas escorregadias e vimos nosso ritmo despencar… acho que passamos na largada dos 84K quando já eram umas 2:00! Ali começamos a sentir que talvez tivéssemos subestimado a dificuldade do terreno. Comemos alguma coisa, reidratamos, reabastecemos e partimos para segunda etapa.

Pela frente vinha o primeiro morro dos 3 realmente grandes da prova… bem maiores do que imaginávamos. Realmente havíamos subestimado a dificuldade da prova, que mostrou ter muito mais morros do que praias e uma dificuldade técnica muito acima do que previmos. Sofremos na subida, e quando estávamos descendo o Bruno ficou para trás sem que percebêssemos. Seguimos em frente eu e o Thiago, esperando que em algum posto adiante o Bruno nos alcançasse. Depois de algum tempo, o Thiago começou a correr nas subidas enquanto eu andava e acabei ficando para trás, pois sabia que se tentasse acompanhar o doido eu acabaria quebrando. Corri uma parte da prova sozinho, mas em um trecho de estrada de terra o Bruno me alcançou e dali em diante seguimos juntos.

O cansaço foi batendo em alguns trechos, e quando amanheceu ainda não tínhamos chegado na largada dos 50K. Para piorar, comecei a passar mal e precisar com urgência de um banheiro, justamente quando já estava dia, num trecho longo de estrada de terra cercada de pastos sem uma maldita moita que pudesse me salvar hehehe. Fui aguentando o desconforto até que chegamos na largada dos 50K perto das 7:30 da manhã, e encontramos os membros da FC Trail que largariam às 8:00 (Fabio Japa, Helen, Pri e Adilson – além da Dani e Radmila que foram fantásticas apoiando o grupo todo durante a prova inteira!!). O Thiago já havia passado por ali e seguido em frente. Reidratei, comi alguma coisa e rumei para o banheiro para resolver o meu desconforto. Nisso acabei perdendo a largada dos nossos amigos dos 50K… peguei minha drop bag, coloquei meias secas, passei protetor solar pois o sol já estava pegando, etc. Demoramos bastante neste posto e nisso o Cesar e Andre que haviam largado nos 84K nos alcançaram, e dali partimos os 4 juntos quando já eram quase 9:00.

Seguimos um tempo juntos, mas a certa altura o Cesar que já não vinha se sentindo bem há horas resolveu andar um pouco e o Andre decidiu acompanhá-lo, afinal além de grandes amigos são cunhados hehe. O Bruno e eu seguimos correndo mais animados, sentindo a corrida render novamente. Um tempo depois, mais um morro insano e infinito começou, e o cansaço e dores começaram a incomodar. Em umas duas ocasiões estive a ponto de desistir, estava me sentindo psicologicamente e fisicamente esgotado. Nesses momentos, a parceria e amizade do Bruno foram essenciais, pois não me deixou para trás e me convenceu a seguir em frente. Não tenho palavras para agradecer o apoio dele, que talvez tenha salvado a minha prova.

Quando estávamos lá pelos 70K o André nos alcançou, e informou que o Cesar havia desistido e voltaria para um posto de apoio. O André estava muito mais inteiro do que eu e o Bruno que já sentíamos muito o cansaço e andávamos bastante, mas se recusou a nos deixar para trás e seguiu conosco até o fim. Valeu André, são amigos como você que fazem a diferença na vida!

Falávamos entre nós que ao chegar na largada dos 21K, por mais detonados que estivéssemos não desistiríamos mais de jeito nenhum… chegando neste ponto teríamos a certeza de concluir a prova. Enfim chegamos a este posto, e estávamos realmente muito, mas muito cansados mesmo. E lá estavam novamente a Dani e Radmila nos apoiando. Soubemos por elas que o Cesar havia ressuscitado e voltado à prova! Reabastecemos, comemos, descansamos um pouco, conversamos com o Manoel Lago que nos disse que estávamos mais de 2 horas abaixo do tempo de corte e que portanto podíamos seguir até andando que completaríamos a prova.

Largamos novamente e posso dizer que devido ao cansaço mental e físico, esses últimos 21K foram dificílimos. Seguimos andando muito e correndo em alguns poucos trechos. Fomos na raça e acabamos chegando finalmente na última largada, a do pessoal dos 12K. Dali pra frente fomos levando do jeito que deu, eu sentia muitas dores musculares intensas nas coxas por fadiga muscular e isso estava me matando, mas fomos em frente. Quando faltavam menos de 2K, foi a vez do Bruno quase chegar ao seu limite. Ele já vinha há muitas horas sem conseguir se alimentar porquê sentia muito enjôo, então para ele era uma batalha contra a falta de energia e o mal estar. Usamos o que restava das nossas forças e fomos caminhando até o fim, finalmente avistando o pórtico de chegada. Quando o cruzamos, já eram 18:48! E lá estavam nos esperando e nos incentivando muito todos que já haviam chegado (Japa, Helen, Pri, Adilson e Thiago), Dani e Radmila, e mais alguns familiares como as esposas do Japa, do Adilson e do Seu Luiz.

Faltavam chegar o Cesar e o Seu Luiz. O Cesar chegou um pouco depois de nós, uma chegada emocionante por toda a dificuldade que ele enfrentou para resolver voltar à prova sozinho após ter desistido. Mais um tempinho e chega o Seu Luiz sorridente, e assim todos os 10 membros da FC Trail completaram suas distâncias!

Esta prova foi uma aula de superação física e mental, além de uma demonstração de quanto amizades e parcerias verdadeiras fazem uma enorme diferença nas nossas vidas nos momentos mais difíceis que enfrentamos. Mais tarde jantamos em um rodízio de pizzas e mais uma vez me peguei pensando e confessando ao Adilson que achava que nunca mais faria Ultras de Montanha… estava orgulhoso pela conquista, mas sentindo o impacto de toda a dificuldade enfrentada. Mas adivinhem só… mais uma vez, da mesma forma que ocorreu em Corupá, na manhã seguinte acordei ainda mais dolorido, mas totalmente viciado e ansioso pela próxima! E que venham muitas, e certamente ao lado dessa galera especial da FC Trail!

Autor: Leo Rolim

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10 Comments

  1. Aeee Leo,
    Parabéns pelo relato e pela prova.
    O relato foi bem legal pq deu para me imaginar lá nos 100k e sentir o poder da amizade que a gente encontra nas nossas corridas de montanha.

    Parabéns pela superação e em 2015 estaremos juntos no 100k.

    Abs
    fabiojapa

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    • É isso aí Japa, em 2015 estaremos juntos nos 100K e a amizade fará muita diferença! Abraço

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  2. É isso ai Leo, superando seus limites, parabéns meu amigo, agora bora para próxima, e o que ficam são as ótimas lembranças, em alguns momentos sofridas e em outros o êxtase da superação, o vicio à este esporte nunca diminui, por que não é só pelo esporte e sim pelas amizades que fazemos e queremos estar sempre juntos.

    Abraços.

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    • É bem por aí Cesar. Parabéns pela sua aula de superação pessoal no Indomit. Certamente faremos muitas outras. E vc está certíssimo, o mais importante em tudo isso são as grandes amizades conquistadas. Abraço

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  3. Depoimento realmente emocionante! Parabéns pela realização!!! Abs, Mayra

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    • Muito obrigado Mayra 🙂

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  4. Parabéns LEO

    Você me fez curtir novamente cada momento vivido nessa grande prova, só quem participa de uma dessas pode avaliar a emoção quando cruzamos a linha de chegada,
    Um grande abraço
    Luiz

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    • Obrigado, grande Seu Luiz! Você deu show lá, chegando sorrindo após os duros 84K que enfrentou! Parabéns! Estaremos juntos em muitos treinos e provas! Grande abraço!

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  5. Leo,
    O Steve e eu estávamos ansiosos para ouvir/ler o relato da prova. Como alguém disse nos comentários acima, emocionante… Parabéns por completar a prova e parabéns por ter-se juntado a um grupo que parece ser extraordinário. Apoio de um time, independente do esporte ser individual, é simplesmente um “must”.
    Estamos orgulhosos da sua conquista e usamos a sua força como inspiração por aqui…
    Continuaremos a seguir as suas aventuras montanhísticas e quem sabe um dia estaremos suando juntos em trilhas por este mundão a fora!
    Vc sabe que será sempre bem-vindo aqui, pra treinar e competir nas nossas montanhas locais!!
    E traz este povo da FC Trail!! Faremos excursões de corrida e craft beer tasting! hehehe
    Abração “daqueles”!

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  6. Parabéns Léo. Consegui visualizar a prova com o seu relato e ver a superação de cada um. Super orgulho desse grupo,realmente é muito mais que corrida, muito mais que montanha, é mais sobre amizade…rs 🙂

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